O inicio do cristianismo pode ser dividido nos seguintes períodos:
a) Período Apostólico – Enquanto os Apóstolos estão vivos
b) Período pós-Apostólico – séc.: II/III
c) Séculos IV a VI
Período Apostólico
Antecedentes da Igreja católica – judaísmo
A vida orante de Israel estava concentrada em Jerusalém e nas sinagogas
Só o templo de Jerusalém tinha altar, onde eram feitos os sacrifícios, uma vez que, a sinagoga, era para escutar a palavra mas não se ofereciam sacrifícios.
O Sábado era dia santificado para os judeus, todo o bom hebreu era chamado a viver o descanso e a alegria de Deus, além disso, fazia com que a comunidade se sentisse irmanada.
O Domingo perdeu o sentido para os europeus.
A festa faz com que as pessoas voltem às suas origens porque é uma paragem no ciclo consumidor do tempo.
O hebreu não tinha que ir à sinagoga, só tinha que santificar o dia, rezando duas vezes por dia:
a) No período da tarde (Arvit). Porque, para os hebreus, a tarde é o início/abertura de um novo dia.
b) No período da manhã (holocausto da manhã) (Shacharit). Para celebrar o nascer cósmico do sol.
Numa primeira fase, os apóstolos, ainda frequentavam o templo e proferiam o Shemá[1] de Israel três vezes por dia, em que Deus fala ao seu povo – povo de Deus é povo que escuta o seu senhor e cumpre a sua palavra , o que o leva à prosperidade.
Jesus também ensina o Pai-Nosso que devia ser também rezado três vezes ao dia mas, desta feita, é o povo que fala a Deus “Pai Nosso que estais no céu…”.
No cristianismo não há corte com o judaísmo, eram sim tidos como grupo cismático[2] do judaísmo.
Período Apostólico (séc. II – IV)
Neste período, começam a autonomizar-se e têm uma identidade própria.
O Domingo passa a ser visto e comemorado como dia da ressurreição, ou seja, Páscoa.
S. Paulo fazia assembleias: na primeira parte pregava e na segunda, celebrava a eucaristia. A eucaristia está também ligada às formas orantes de Israel.
Rezam-se os salmos (Antigo Testamento).
A eucaristia está ligada às formas orantes de Israel.
Nos Actos dos Apóstolos está descrita a primeira perseguição, que foi feita pelos Judeus em Jerusalém, e é assim que Judeus e Cristãos se dividem. São chamados “Cristãos”pela primeira vez em Antioquia[3].
Cada apóstolo fundava comunidades pelos sítios por onde passavam, ficavam por lá alguns anos, escolhiam um “chefe” e partiam para outros locais.
A partir do século II, as igrejas da antiguidade, são decisivas na difusão do cristianismo.
As igrejas da antiguidade principais eram:
a) Jerusalém (fundada por S. Tiago)
b) Antioquia
c) Alexandria
d) Roma
e) Constantinopla[4]
f) Santiago de Compostela (também de fundação apostólica)
No ano 150, surge o papel de leitor devido à liturgia bem como os papéis de diácono, …, pelos dons e serviços que se começavam a distribuir e estruturar.
Os apóstolos ficam confinados à evangelização.
S. João foi o último apóstolo. Ele faz referência a Roma, cidade na qual morreu S. Pedro.
Em Roma há a teoria do gnosticismo que reduz o cristianismo a uma mera corrente filosófica. É uma visão negativa da matéria que faz de Jesus um ente divino, desprovido de humanidade e coloca-o quase como uma teoria questionando “como é que um Deus pode chegar à humilhação da condição humana?”.
É então que, através da reflexão sobre o mistério de Deus, que nasce a teologia.
Inicialmente, limitava-se a um entabulamento com os gregos e os romanos, povos com conhecimento, porque o cristianismo, inicialmente era só para escravos e pessoas destinadas a trabalhos braçais.
S. Justino era filósofo de profissão em Roma.
Até ao século VI, a dicotomia cultura clássica/cristianismo vem trazer um novo desafio à Igreja católica, obriga a Igreja a repensar-se e, também nessa época, dá-se o aparecimento de novas heresias ligadas primeiro à compreensão de Jesus (séc. III), depois à relação de Jesus no seio da Santíssima Trindade e, finalmente, nos séculos IV e V, ao Espírito Santo. Basta, para isso, verificar que ainda hoje, quando se canta a “Glória” (hino do século II que teria sido cantado pelos anjos no nascimento de Jesus), quase não se dá importância ao Espírito Santo.
Durante o Renascimento, com Descartes, por exemplo, o homem é divido em duas partes: A parte boa, consistindo na alma/espírito; e a parte má sendo o corpo (é daí que vêm os castigos corporais!).
A Igreja vive perseguida e não é aceite no Império Romano e se, no início, os cristãos eram perseguidos sem razão, começam agora a aparecer justificações jurídicas para as perseguições dos cristãos. Eles iam contra a lei porque não prestavam veneração ao imperador que, para os romanos, era o representante dos deuses na terra; e não colocavam incenso no altar como oferenda aos deuses.
Até à paz de Constantino, houve dez grandes perseguições aos cristãos. Não era público poder ser-se cristão e, além disso, não tinham templo. Eram acusados de serem “uma cambada porque não têm Deus, são ateus”, além disso, não tinham templo, nem altar, nem sacrifícios como nas religiões antigas (politeístas).
Para os cristãos, o templo, era uma realidade espiritual. Para eles, fiéis são os que entram em Cristo pelo baptismo e cada pessoa é uma pedra no templo espiritual de Cristo e do Cristianismo. O altar é o coração de cada um e, durante a eucaristia, reúnem-se à volta de uma mesa, como Jesus na última ceia. Não fazem sacrifícios cruentos porque, para eles, a eucaristia é o sacrifício.
Devido a todas as perseguições e ao pouco conhecimento que havia da religião cristã, os apóstolos e cristãos escreviam ao imperador e às pessoas cultas as chamadas apologias, cartas em que se explicava em que consistiam o cristianismo e os cristãos.
Tertuliano[5] escreve que “sangue dos mártires, sementes de cristãos”.
Também nesta época, os cristãos são martirizados nos circos e coliseus.
Lei do Arcano – lei tácita (secreta) à qual obedeciam todos os cristãos – “Nada do que temos de mais sagrado o revelamos sem mais”.
O baptismo só era sacramentado após três anos de iniciação e só depois podiam assistir à missa e participar da eucaristia.
A eucaristia era uma coisa sagrada e, por isso, era decorada e não escrita para não cair nas mãos erradas.
No séc. II a celebração da Páscoa divide, uma vez mais, a Igreja.
A Páscoa era celebrada todos os domingos mas começou a ser celebrada solenemente uma vez por ano e nesta época que aparecem duas celebrações.
a) A dos Quatrodecímanos (14), que faziam parte da Igreja do Oriente e celebravam a Páscoa no dia 14 do calendário lunar (que tem só 28 dias), no mesmo dia que os hebreu, no mês de Nisan[6], correspondente a meados de Março/Abril, o que nem sempre calhava a um domingo e, assim, perdia-se o sentido do domingo;
b) A de Roma que celebrava no primeiro domingo de Março.
Para os Orientais, Páscoa, significava paixão, sofrimento e morte, para os Ocidentais, por sua vez, queria dizer passagem da morte à vida, do pecado à graça – ressurreição.
O problema é que cada uma das posições se fundamenta na sagrada escritura.
O Papa Vítor I[7] decretou a Páscoa ao domingo no entanto, Santo Ireneu, bispo em Lyon, interveio porque tinha vivido a juventude no Oriente e conhecia ambas as tradições, logo, escreve ao Papa para que deixasse ficar as coisas como estavam.
Esta questão resolve-se em 325, no Concílio de Niceia, concílio ecuménico, ou seja, presidido pelo Papa, fica decidido que a Páscoa se celebra ao domingo e é, então, criada a regra para datar a Páscoa: primeiro domingo depois da primeira lua cheia depois do equinócio da primavera. A partir de então, quem faz a datação é o patriarcado de Alexandria.
(25 de Abril – baptismo de Santo Agostinho)
Catecumenato era o tempo de preparação para o baptismo. A admissão [ao catecumenato] era muito filtradora e, as pessoas, tinham que reunir certas condições: Não podiam ser soldados porque os soldados romanos eram obrigados a venerar o imperador, não podiam ser actores de teatro nem mestres de escola por causa da representação de idolatria, não podiam ser donos de casas de prostitutas, fazer cultos, …, ou então, podiam abandonar todas essas coisas.
O catecumenato era dividido em:
a) Formação na história da salvação;
b) Iniciação à vida cristã;
c) Iniciação à eucaristia.
Inicialmente o baptismo era feito na noite de Páscoa após os três anos de catecumenato e, em casos excepcionais, saltava-se essa parte, como era o caso de pessoas em perigo de vida. Os mártires, ainda que não fossem baptizados, eram considerados baptizados mesmo depois da morte, os chamados baptismos de sangue. As crianças eram também baptizadas.
Depois, o baptismo foi alargado para o dia de Pentecostes e para a Epifania.
Começa a edificar-se uma liturgia organizada e aparecem os Libelli, criações litúrgicas de bispos e padres que dão origem aos sacramentários.
Séculos IV a VI
Em 313, Constantino[8] dá a paz à Igreja e começa a construção de templos o que leva a uma maior adesão ao cristianismo.
Neste período dá-se um boom cristão.
Este é também o período áureo da liturgia, que deixa de ser secreta e passa a ser escrita.
Em 321, o domingo, é declarado feriado em todo o Império Romano.
Para o templo cristão é adoptada a estrutura da basílica romana que, originalmente, era utilizada como local de justiça.
Começam a ser decoradas com mosaicos com a figuração do Cristo pantocrator[9] sentado com as escrituras.
Primeiramente era apenas chamado de templo mas, como era no templo que se reunia a Igreja[10], ou seja, os baptizados, o povo de Deus, o edifício passa também a chamar-se igreja.
Surgem os primeiros ritos litúrgicos e famílias litúrgicas divididos em ritos orientais (Kopta, Bizantino, Alexandrino, …) e ritos ocidentais (Romano, Ambrosiano, Bracarense, Galicano, Moçárabe, Cartuxos e Anglicano).
No século IV a Igreja afirma-se e passa a ter uma relação diferente com o império, passa a ser uma organização que se pode relacionar com o Império Romano, que já está a ceder aos bárbaros (o Império Romano do Ocidente cai em 476 d.C. depois de mais de um século de ataques exteriores).
A Igreja depara-se agora com uma nova heresia, a heresia ariana que reconhecia Cristo mas dizia que a sua humanidade era aparente e não real.
Começam as divergências entre arianos e cristãos, que são apaziguadas por Santo Ambrósio[11] de Milão, eleito bispo por acaso [vd nota rodapé 11], nem sequer era baptizado, andava no catecumenato. Tinha como propósito salvaguardar a autonomia da Igreja face ao império e salvaguardar também a cultura clássica.
Em 476 d.C. dá-se a queda do Império Romano do Ocidente e desaparece a estrutura organizativa dando origem ao aparecimento das ordens religiosas.
É um período desnorteado em que o Bispo é um ponto de referência até para a administração da justiça e fazem-se audiências episcopais.
Na Idade Média, os conventos, em conjunto com as universidades, eram pólos de cultura.
[1] Shemá de Israel – Escuta ó Israel, Ad-nai nosso D-us é Um. (Em voz baixa diz-se) Bendito é o Eterno e que seja bendito para sempre. (Ve’Ahavta) Amarás o Eterno, Teu D-us, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todas as tuas forças. Estas coisas que eu te ordeno no dia de hoje estarão sobre o teu coração. As ensinarás diligentemente aos teus filhos e falarás delas quando estejas sentado em tua casa e quando andes no caminho, ao deitar e ao levantar. As atarás por sinal sobre a tua mão e serão filactérias [tefilin] entre os teus olhos. E as escreverás sobre os marcos [mezuzá] da tua casa e sobre os seus portões. [Devarim (Deuteronómio) 6:4-9] (Veaia im Shamoa) E sucederá que se obedecerem aos mandamentos que Eu lhes ordeno hoje, de amar ao Eterno, Seu D-us, e de servi-Lo com todo o teu coração e toda a tua alma, então eu darei à tua terra a chuva no seu momento próprio, as chuvas prematuras e as tardias, para que recolham o grão, o mosto e o azeite. Eu darei erva a teus campos para o teu gado, e comerão e se saciarão. Cuidem, não seja que se deixe seduzir vosso coração e se apartem e sirvam a deuses estranhos e se prostrem ante eles. Então se acenderá a ira do Eterno contra vós; Ele reterá os céus para que não haja chuvas e a terra não produza o seu fruto. E serão exterminados rapidamente da boa terra que o Eterno lhes entrega. Ponham estas Minhas palavras nos vossos corações e nas vossas almas; atem-nas por sinal em vossas mãos e sejam tefilin entre os teus olhos. As ensinarás aos teus filhos, para falar delas quando estejas sentado em tua casa e quando andes no caminho, ao deitar e ao levantar. As escreverás sobre os marcos da tua casa e sobre os teus portões, a fim de que se multipliquem os dias dos teus filhos sobre a terra que o Eterno jurou entregar a teus antepassados, como os dias do céu sobre a terra. [Devarim (Deuteronómio) 11:13-21] (Vaiomer Ad-nai) O Eterno falou a Moisés, dizendo: Fala aos filhos de Israel e diz-lhes que façam franjas nos cantos de suas roupas ao longo das suas gerações. E ponham sobre a franja um cordão de cor azul. E serão tzitzit para vós, para que o vejam e se lembrem de todos os mandamentos do Eterno e os cumpram e não explorem atrás dos vossos pensamentos nem detrás dos vossos olhos, nos quais vocês se corrompem. A fim que recordem e cumpram todos os Meus mandamentos e sejam santos para o vosso D-us. Eu Sou o Eterno, vosso D-us, que vos saquei da terra do Egipto para ser o vosso D-us. Eu Sou o Eterno, vosso D-us. [Bamidbar (Números) 15:37-41]
[2] Cisma – Um cisma é uma separação de uma pessoa ou grupo de pessoas do seio de uma organização ou movimento, geralmente religioso. O termo costuma referir-se a uma divisão que acontece no âmbito de um corpo religioso com organização e hierarquia definidas.
[3] Antioquia – Presentemente é uma cidade localizada no Sul do território turco, na província de Hatay, nas margens do rio Orontes. Foi edificada por Seleuco Nicátor cerca do ano 300 a. C., tendo sido durante o domínio de Roma capital do Império Seleucida e da província da Síria, atingindo o seu esplendor máximo durante a vigência de Antíoco, o Grande, e com os primeiros imperadores romanos. O número de habitantes da urbe nesse tempo, cerca de 500 mil, era superado no Oriente somente por Alexandria. Foi, de igual modo, um importante centro de difusão do cristianismo, com o seu bispo a ostentar o título de patriarca, e um significativo centro de expansão missionária. Os Persas destruíram a cidade em 538 mas ainda no mesmo século o imperador Justiniano promove a sua reconstrução.
[4] Constantinopla – Capital do Império Bizantino de 330 a 1453. Antiga Bizâncio, depois da sua tomada pelos Turcos em 1453 passou a denominar-se Istambul.
[5] Tertuliano – Quintus Septimus Tertullianus foi um autor latino dos séculos II-III d. C., do norte de África, do tempo de Marco Aurélio. Um dos primeiros escritores cristãos relevantes, foi teólogo e gramático. A sua obra, longamente influente, é considerada um dos elementos formadores da cultura cristã de expressão latina.
[6] Nisã ou Nisan ou Nissan (antes chamado de Abibe ou Abib) é o primeiro mês do calendário judaico, e corresponde a março-abril do calendário gregoriano. Foi no 14º dia desse mês que Jesus comemorou a Páscoa judaica com os seus discípulos (Levítico 23:5-15, Êxodo 9:31 e 13:4) e em seguida instituiu a celebração de sua morte em prol da humanidade pecadora. Para determinar o catorze de nisã é preciso ter noção de alguns conceitos astronómicos.
[7] Vítor I – foi o décimo-quarto papa da igreja apostólica cristã entre (datas aproximadas) 189 e 199. Vítor nasceu na província romana de Tunísia; esta noticia è bastante certa, pois na Catedral Católica de Tunes, à esquerda do altar, tem um mosaico com o rosto dele. De seu pai sabe-se somente que se chamava Félix. Vítor I estabeleceu que qualquer tipo de água, quer seja de um rio, mar ou outras fontes, pode ser utilizada no baptismo, no caso de faltar água benta. Outra contribuição importante foi o estabelecimento do domingo (em substituição do sábado) como dia sagrado, em memória da ressurreição de Jesus Cristo. Foi Vítor I quem determinou que a Páscoa seria celebrada sempre neste dia da semana, excomungando todos os bispos que se opuseram à mudança. O Concílio de Niceia (325) confirmou sua decisão. É também sua a decisão de realizar as missas em Latim em vez de Grego. Pensa-se que Vítor tenha sido martirizado durante o reinado de Septímio Severo.
[8] Constantino I – o Grande, nasceu provavelmente em 274 na região de Naisso, Mésia Superior. Foi imperador romano entre os anos de 306 e 337, ano da sua morte. À morte de seu pai em Iorque em 306, Constantino é aclamado pelos seus soldados César e depois Augusto. Em 312, fica com o domínio do Ocidente ao vencer Maxêncio, perto de Roma. Com a morte de Galério em 311, Constantino inicia o governo conjunto do Oriente com Licínio, que suporta até 324, altura em que o derrota na batalha de Crisópolis, mandando-o matar em Tessalonica. Com a publicação do édito (ou carta) de Milão no ano de 313, estabeleceu a tolerância de culto, iniciada anteriormente por Galieno e Galério, e no concílio de Niceia de 325 condena os donatistas e estabelece condutas de fé e disciplina, favorecendo deste modo o progredir do cristianismo como religião dominante do império, situação que sai reforçada com a consagração à Virgem Maria em 330 da capital do império de Constantinopla. A nível do governo-geral foi um hábil estratego, conferindo ao poder imperial um cunho pessoal, introduzindo na administração pessoas da sua confiança. Tornou a aristocracia senatorial numa classe territorial, que se hierarquizava mediante os serviços prestados ao Estado. Empreendeu também reformas ao nível militar, separando os encargos do exército dos civis e retirando protagonismo aos contingentes fronteiriços.
[9] Pantocrator (Παντοκράτωρ) – é uma palavra de origem grega que significa etimologicamente “todo-poderoso” ou “omnipotente”. Também possui variante com acento gráfico no segundo “a”: pantocrátor. Encontra-se várias vezes no Novo Testamento em grego. Provém de pan (tudo ou todo) e krátos (alto, em cima e, daí, governo, poder). Geralmente o seu uso encontra referência no ícone bizantino “pantocrator”, que representa Cristo, tendo sua mão direita inclinada, em posição de bênção — com o polegar voltado para si, os dedos médio e apontador em posição oblíqua, quase vertical, e os demais dedos dobrados em direcção à palma da mão (fechados). Esta posição da mão direita indica sua dupla natureza – a divina e a humana – indicada nos dois dedos erguidos e sua participação na Trindade como segunda Pessoa indicada pelos três dedos unidos nas pontas. Na mão esquerda, as Sagradas Escrituras.
[10] Igreja – No evangelho segundo S. Mateus, capítulo 18, versículos 15 a 17, encontramos as seguintes palavras de Jesus: “Ora, se teu irmão pecar, vai, e repreende-o entre ti e ele só; se te ouvir, terás ganho teu irmão; mas se não te ouvir, leva ainda contigo um ou dois, para que pela boca de duas ou três testemunhas toda palavra seja confirmada. Se recusar ouvi-los, dize-o à igreja; e, se também recusar ouvir a igreja, considera-o como gentio e publicano.”, na qual a Igreja se refere ao grupo de cristãos a que pertençam tais irmãos. A palavra Igreja aparece no Novo Testamento pela 1ª vez no livro de Mateus (C.16, V.18), quando Jesus Cristo afirma que edificaria sua Igreja e que as portas do Inferno nunca prevaleceriam sobre ela: “V.18 Pois também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela”.
[11] Santo Ambrósio – Nascido em Trier, na Alemanha, no ano de 340 e falecido em Milão a 4 de Abril de 397, provinha de uma antiga família convertida ao Cristianismo, Santo Ambrósio era filho de Ambrósio, prefeito do pretório das Gálias, que dominava os actuais territórios da França, Grã-Bretanha e Espanha, juntamente com Tingitana, em África, e que era uma das quatro maiores prefeituras do Império Romano e o mais alto cargo que algum súbdito poderia ter. Era o mais novo dos seus irmãos, Marcelina, que veio a ser monja, e de Satírio, que se demitiu da prefeitura para viver com Santo Ambrósio, quando este foi nomeado para o episcopado. Após a morte do pai, a família mudou-se para Roma, onde Santo Ambrósio estudou, assistido pela sua irmã Marcelina, religiosa e dez anos mais velha, tendo feito progressos tanto nos seus conhecimentos seculares como nas suas virtudes de piedade. Da irmã, Santo Ambrósio adquiriu o respeito e devoção pela virgindade, traço que marcou a sua vida eclesiástica. Os seus conhecimentos da língua e da literatura gregas foram complementados pelo estudo e pela prática do Direito, tendo-se Santo Ambrósio rapidamente distinguido pela sua eloquência e a habilidade com que defendia as suas causas na corte de Anicius Probus, o prefeito do pretório da Itália, que mais tarde lhe conseguiu, junto do Imperador Valentiniano, a nomeação de cônsul governador da província da Ligúria-Emília, com residência em Milão. O prefeito despediu-se de Santo Ambrósio com as proféticas palavras “Vai, e tem uma conduta não de juiz, mas de bispo”. O seu trabalho nesta província granjeou-lhe uma grande estima por parte dos seus súbditos, numa espécie de preparação de uma grande mudança que se viria operar na sua vida, tanto que toda a província e sobretudo a cidade de Milão estava num estado de caos religioso, provocado, sobretudo, pelas intrigas da facção ariana. A morte do bispo ariano Auxêncio, em 374, encerrou um período de tirania e violenta perseguição dos cristãos da tradição. Os bispos da província, temendo os tumultos previstos por uma consequente substituição, pediram ao imperador um substituto de Auxêncio nomeado por édito imperial. O imperador recusou, alegando que a eleição se deveria processar da forma habitual e recomendou a Santo Ambrósio que mantivesse a ordem na cidade durante este período tão delicado. Na basílica onde estava reunido o clero e o povo, Santo Ambrósio fez um discurso, em tom conciliatório, que apelava à paz e à moderação, de uma extraordinária eloquência. Interrompido pela voz de uma criança que gritou “Ambrósio, bispo”, toda a assembleia repetiu estas palavras. Para seu grande espanto, foi ali mesmo aclamado bispo. Apesar de qualquer intervenção divina, Santo Ambrósio era o único candidato possível, dado agradar a cristãos pela sua crença no Credo de Niceia e aos arianos pela sua aversão às controvérsias teológicas. Apesar da sua relutância em aceitar, pela sua falta de preparação para o cargo, a sua nomeação foi confirmada pelo imperador Valentiniano. O santo acabou por aceitar e recebeu o baptismo das mãos de um bispo cristão, em 7 de Dezembro de 374, seguindo-se a ordenação e a consagração episcopal.
Uma da suas primeiras iniciativas foi despojar-se de todos os seus bens terrenos que deu aos pobres e à Igreja, depois de prover ao sustento da sua irmã. A dedicação do seu irmão Satírio em lhe tratar dos assuntos temporais deixou-lhe mais tempo para se dedicar aos seus deveres espirituais. Dedicou-se ao estudo das Sagradas Escrituras e a sua fama como expositor eloquente da doutrina católica correu o mundo inteiro. O seu poder de oratória valeu-lhe imensos elogios e a conversão do experimentado retórico Santo Agostinho que dizia que “Ele é um daqueles que fala a verdade e fala-a bem, judiciosamente, com precisão, beleza e poder de expressão”. Como bispo da corte imperial desenvolveu uma grande actividade política, conseguindo, nos primeiros anos de Valentiniano II, evitar que fosse reerguida no Senado, a estátua da deusa Vitória; protestou, em 388, contra a exigência que o imperador Teodósio queria fazer ao bispo de Calinico de reconstruir a sinagoga destruída por monges daquele lugar e impôs grave penitência ao mesmo imperador por ter mandado massacrar a população de Tessalonica devido a uma revolta que teve lugar em 390. Os seus discursos de Domingo atraiam multidões à Basílica e um dos seus assuntos favoritos, a importância da virgindade, foi tão bem defendido junto das jovens que as mães as proibiam de ouvir os sermões de Santo Ambrósio. O santo teve mesmo de se defender da acusação de estar a depauperar o império de habitantes dada a grande dificuldade dos jovens em encontrar mulheres para casar. Santo Ambrósio defendia que o aumento da população era directamente proporcional ao valor dado à virgindade. Era tão estimado pelo seu povo e tão universalmente popular e bem sucedido que a herética imperatriz Justina não tivera coragem de o mandar assassinar ou exilar por medo da reacção da multidão. Santo Ambrósio pregou contra o arianismo, opondo-se à imperatriz Justina quando esta assumiu a sua preferência por esta doutrina após a morte do imperador.
Quase todas as obras de Santo Ambrósio são de índole eminentemente prática e têm origem nos sermões que pregou, caracterizando-se geralmente por um tom edificante ou de catequese e evitando pretensões filosóficas ou especulativas. Teve ainda o mérito de difundir no Ocidente as doutrinas dos padres gregos, em particular Orígines, Basílio, Dídimo e Atanásio, e de expor com muita clareza o dogma cristão de Éfeso e Caledónia. As suas obras dogmáticas, De fide, De Spiritu Sancto, De incarnationis dominice sacramento são muito simples. Destacam-se os seus escritos sobre a Virgem e a Eucaristia, pois é um dos primeiros padres a dar a Maria um lugar fundamental na moral e na espiritualidade cristãs, considerando-A na sua De institutione virginis como figura da Igreja e segunda Eva, um modelo de virtudes. Foi pioneiro na formulação da doutrina de transubstanciação, em De misteriis, embora sem empregar a palavra. Santo Ambrósio teve ainda muita importância na concretização dos deveres cristãos e dos ensinamentos morais, fixando a norma do agir com mais clareza sem comparação com nenhum outro até São Tomás, com o tratado De oficiis ministrorum. Os seus escritos sobre a virgindade, De virginibus ad Marcellinam, De verginitate, e Exhortatio virginitatis foram muito influentes no Ocidente. As obras de Santo Ambrósio são preciosas para o conhecimento do culto cristão e da prática sacramental, assim como para o conhecimento dos costumes cristãos da época. O desgosto marcou os últimos anos de vida de Santo Ambrósio quando, em 393, Valentiniano II foi assassinado na Gália quando o bispo de Milão se lhe juntava para o baptizar. O usurpador Eugénio proclamou a sua decisão de restaurar o paganismo romano, mas fê-lo por pouco tempo já que imperador Teodósio derrotou o tirano em 391, tendo depois vindo a morrer em 395. Quando Santo Ambrósio ficou gravemente doente, em 397, o Conde Stilicho com medo que a sua morte implicasse a destruição do império, enviou-lhe uma embaixada implorando-lhe que rezasse a Deus para prolongar os seus dias. Após a sua morte, ocorrida numa Sexta-feira Santa, Santo Ambrósio foi enterrado na Basílica ao lado dos santos mártires Gervásio e Protásio.