Portus Cale

Junho 10, 2009

O EXOTISMO NAS TAPEÇARIAS FRANCESAS DO SÉC. XVIII: OS COSTUMES TURCOS

Filed under: Visitas Temáticas na Ajuda — Sara Sardinha @ 8:35 pm

(Manuela Santana – conservadora da colecção de têxteis)

No Palácio Nacional da Ajuda existem quatro painéis representando os Costumes Turcos:

a)      Dança nos jardins do Serralho

b)      Os trabalhos nos aposentos da Sultana

c)       Toilette da Sultana

d)      O almoço da Sultana

Esta série foi produzida na Real Manufactura dos Gobelins[1], fundada em 1762 por ordem do ministro do rei Luís XIV, Colbert.

Esta série de tapeçarias foi feita entre 1780 e 1782 e foi colocada no Palácio Nacional da Ajuda no século XIX (pelo menos, até então, não há notícia destas tapeçarias).

Estas tapeçarias estão na Sala das Senhoras do Corpo Diplomático e terão sido aqui colocadas por ocasião das remodelações para o casamento de D. Carlos com D. Maria Pia, em 1886 ou em 1903 para a visita do rei Eduardo VII.

As tapeçarias estiveram em voga até ao final do século XVIII, depois, foram guardadas e redescobertas no século XIX já como antiguidades sem qualquer uso.

Até ao final do século XVIII as tapeçarias tinham como função cobrir paredes e até mesmo portas, como decoração sazonal (do Outono até à Primavera), como aquecimento, usados principalmente pela aristocracia.

Eram também usados como decoração efémera dos espaços de festa. Por exemplo, o percurso que Luís XIV fez até à igreja no dia da sua coroação, estava todo decorado com tapeçarias.

Os Gobelins passam também a ser produzidos para os palácios reais e para oferecer como presente. O rei deu, ainda, autorização para se realizarem, nos tempos livres, encomendas privadas e foi nesse sentido que foram produzidos os Costumes Turcos, que estão datados e assinados pelo pintor e pelo tapeceiro.

Havia dois grandes ateliers:

a)      Audran

b)      Cozette

Para fazer as tapeçarias eram feitos cartões através de pinturas, em guache, aguarela, carvão, …

Francisco Goya enviava os seus cartões para o rei e  aguardava a aprovação real para depois serem tecidos.

 

“A Dança” é a única composição na Europa deste género, uma vez que já não há nem cartões nem placas de cerâmica.

As cercaduras eram pintadas por um “pintor do rei para flores”.

Neste caso, as cercaduras imitam molduras de talha dourada porque, nas tapeçarias, se tentava reproduzir, o mais fielmente possível, uma pintura.

Os modelos foram tecidos em quatro séries oficiais, sendo a do Palácio da Ajuda, a única completa. Não se produziram mais, provavelmente por serem vésperas da Revolução Francesa.

Há, no século XVIII, um grande fascínio pelo exótico, representado em várias expressões artísticas: Cartas Persas, tradução das 1001 noites (1704), Mozart, Montesquieu, …

Os pintores da corte eram enviados para as Nações do Levante para retratar os seus costumes.

Surgem depois as “Mascaradas” como em “A caravana do Sultão” em que o pintor é retratado como Sultana Rainha e os retratos à turca, com turbantes e trajes orientais.

Uma das primeiras séries exóticas foi “A história do imperador da China”, da qual faz parte “O chá da imperatriz”.

Série das Antigas Índias, série das Novas Índias, série Os Continentes (tão famosa que se fizeram duas séries!).

Outras peças:

a)      A Madame de Pompadour mascarada de sultana, sendo servida de uma chávena de café por uma negra (pintado por Carle Van Loo)

b)      A Toilette de Ester – completo irrealismo da tapeçaria: ambientes europeus apenas com alguns elementos orientais

Temáticas principais:

a)      Trabalhos de agulha

b)      Chá

c)       Café

d)      Dança

e)      Música

f)       Fumo

g)      (…)

 

Jean-Baptiste Pierre propôs como pintor Amedée Van Loo ao irmão de Madame de Pompadour (director da manufactura).

Amedée Van Loo fez apenas quatro das cinco tapeçarias previstas inicialmente e o primeiro foi a “Toilette da Sultana” em que:

a)      O dossel é europeu

b)      Os coxins e o tapete são europeus

c)       Exótico: eunucos e escrava negra

d)      Refere a importância da toilette na corte otomana

  

Toilette da Sultana

Toilete da Sultana

Toilete da Sultana

Autores: Loo, Amédée Van (1719-1795); Audran, Jean (activo entre 1771 e 1794); Tessier, Louis (1729-1781)

Datação: 1782 d.C.

Dimensões: altura 383 cm, largura 405 cm

Descrição: A Sultana – protagonista da cena – sentada em coxins sob um imponente dossel, aponta para uma peça de tecido que uma serviçal parece ter retirado de uma arca. Ao seu colo tem um pequeno cão. Outras quatro mulheres completam o quadro: duas estão aparentemente ocupadas a fixar um véu ao penteado da Sultana, as outras duas apresentam à sua ama um espelho e um cofre. Este quadro intimista surge num cenário marcado por elementos arquitectónicos de grande escala e em estilo europeu. O enquadramento, o desenho dos objectos decorativos, as fisionomias, o cão e os detalhes da indumentária constituem exemplos do irrealismo destas composições. Nestas cruzam-se elementos orientalizantes com estilos da Europa setecentista. A cercadura, cujo modelo foi pintado por Louis Tessier em 1777, sugere uma moldura em talha dourada. Na orla de cor castanha escura estão inscritas a marca do tapeceiro e o ano da tecelagem. A assinatura e a data do modelo podem ver-se na arca à direita da composição. 

Os “Trabalhos nos aposentos da sultana” são o segundo item do projecto (1774):

a)       Odaliscas divertindo-se em trabalhos agradáveis (bordados)

b)       Exótico: papagaio, turbantes, miúdo negro

Trabalhos nos aposentos da Sultana

Trabalhos nos aposentos da Sultana

Trabalhos nos aposentos da Sultana

Autores: Loo, Amédée Van (1719-1795); Cozette, Pierre-François (activo entre 1749 e o ano IV); Tessier, Louis (1729-1781)

Datação: 1780 d.C. 

Dimensões: altura 378 cm; largura 417cm

Descrição: Caminhando pela sala, a Sultana orienta o trabalho de cinco mulheres: quatro delas bordam sentadas num sofá e a quinta está sentada no chão dobando os fios. Com as figuras à direita do quadro – um homem, um rapaz e um papagaio – o pintor procura dar um “toque oriental“ à cena. O pintor reproduz, na verdade, a atmosfera das cortes europeias da época. É notório o irrealismo dos enquadramentos, do tapete, das fisionomias e indumentária das mulheres ou a fantasia com que Van Loo evoca o quotidiano do Serralho. Nesta tela o pintor recria uma actividade que, embora muito marcante na cultura otomana, constituía também uma das ocupações das mulheres europeias de elevado estatuto social. A cercadura, cujo modelo foi pintado por Louis Tessier em 1777, sugere uma moldura em talha dourada. A orla é castanha escura. A tapeçaria apresenta duas marcas: na base do poleiro, a assinatura do pintor e a data do modelo, na orla inferior direita, a marca do mestre tapeceiro e a data da tecelagem.

“O Almoço da Sultana”:

a)      Sultana fumando cachimbo rodeada por serviçais, acomodada em almofadas, num jardim, servida por escravos negros

Beber chá e café era muito sofisticado – uma taça de café era quase um acessório de moda

O Almoço da Sultana

O almoço da Sultana

O almoço da Sultana

Autores: Loo, Amédée Van (1719-1795); Audran, Jean (activo entre 1771 e 1794); Tessier, Louis (1729-1781)

Datação: 1782 d.C.

Dimensões: altura 388 cm; largura 503 cm

Descrição: A tapeçaria representa a protagonista – a Sultana – fumando cachimbo, rodeada pelas favoritas e pelos serviçais. A Sultana está acomodada sobre almofadas nos degraus de um jardim, à sombra de uma árvore frondosa. Os degraus estão revestidos por um tapete de design europeu, onde estão sentadas quatro mulheres. Uma escrava negra apresenta à Sultana uma bandeja com um bule e uma chávena de chá. Do lado contrário, em primeiro plano, um escravo negro segura outra bandeja com uma cafeteira, um homem e uma criança exibem cestas de frutos. Como pano de fundo da composição um jardim, balaustradas, uma fonte e, em último plano, um palácio. Particularmente rica em detalhes, esta tapeçaria regista alguns hábitos que eram sinónimo de sofisticação entre a aristocracia do Velho Continente. Em elegantes peças de ourivesaria europeia são servidos à Sultana chá e café, na época bebidas luxuosas e exóticas. Acentuando o carácter exótico da composição, as bebidas são servidas por escravos negros. Como assinala Perrin Stein (p. 427), este tipo de representação é ao mesmo tempo exótico e familiar. Tomar café era uma actividade social em voga e uma chávena de café constituía um acessório de moda com o qual se faziam retratar as damas das cortes europeias.

“Dança nos Jardins do Serralho”:

a)      A festa galante, obrigatória nas séries

b)      Sultana, sultão, dossel com grinaldas de flores muito europeu

c)       Dançarina e músicos

d)      Elementos masculinos e instrumentos musicais são as únicas influências turcas

Dança nos Jardins do Serralho

 

Dança nos jardins do Serralho

Dança nos jardins do Serralho

Autores: Loo, Amédée Van (1719-1795); Audran, Jean (activo entre 1771 e 1794); Tessier, Louis (1729-1781)

Datação: 1780 d.C.

Dimensões: altura 381 cm; largura 500 cm

Descrição: Neste modelo para tapeçaria Vanloo ilustrou uma “fête galante“ nos jardins do Serralho. Segundo Perrin Stein (p. 329), o pintor seguiu a moda lançada por Jean-Antoine Watteau (1684-1721), que impunha as actividades ao ar livre nas séries ditas “exóticas“. A tapeçaria representa um espectáculo de música e de dança ao qual assistem a sultana e o sultão, sentados em coxins altos. Estão instalados num estrado com degraus, sob um sumptuoso dossel ornado com passamanaria e grinaldas de flores. Diante dos dois protagonistas uma mulher, enfeitada com grinaldas idênticas, dança e toca pandeireta. Sentadas nos degraus, outras mulheres contemplam a exibição. Num plano mais recuado, junto a uma balaustrada, encontram-se os músicos e outros assistentes. Nesta, como nas outras composições do conjunto, não existe uma verdadeira preocupação de realismo. Elementos arquitectónicos ou decorativos otomanos surgem apenas de forma episódica. Apesar de alguns detalhes – caso de algum do traje masculino ou dos instrumentos musicais de origem oriental – prevalece o protótipo francês, presente não só nos enquadramentos como no tipo de figuração das personagens. A cercadura, cujo modelo foi pintado por Louis Tessier em 1777, sugere uma moldura em talha dourada. A orla é castanha escura. A assinatura e a data do modelo podem ver-se no canto direito da composição. No canto oposto, a vermelho, a marca do mestre tapeceiro e a data da tecelagem.

A corte portuguesa aderia às modas europeias, no entanto, em Portugal, o gosto pelo exótico europeu co-existia com o gosto exótico nacional pelo nosso contacto directo com os outros povos.

Em 1790, os inventários do real tesouro, apresentavam 85 séries (sendo que cada série tinha várias peças), das quais, 27 tinham temática pseudo-oriental.

 Havia também o gosto pelo 100% exótico com objectos das “Índias”, que vinham para Portugal em virtude dos contactos com outros povos.

Até William Beckford escreveu, no seu diário, surpreendido pela profusão de elementos orientais em muito maior proporção que em outros países europeus.

D. Maria I tinha um grupo de anões negros protegidos dos quais, D. Roza, era a mais importante.

Os “costumes turcos” terão chegado a Portugal por ocasião do casamento de D. João VI e D. Carlota Joaquina. Para essa ocasião vieram nove expedições de França, uma delas só com tapeçarias porque, em Portugal, não havia muitas peças de tapeçaria.

A boda foi no Palácio de Vila Viçosa (1785), que estava decorado com “panos de Ráz”, ou seja, tapeçarias de Arras, em França.

As tapeçarias estiveram também no Palácio das Necessidades.

Em 1910 foram retirados o trono e o baldaquino e, o Almoço da Sultana tapava as marcas do baldaquino.

Em 1985, o palácio foi preparado para receber a rainhade Inglaterra e recolocou-se o trono. A tapeçaria, depois de restaurada, foi colocada na reserva do palácio.


[1] Gobelins – Os Gobelins eram uma família, originária de Reims, de tintureiros especializados na tinturaria do vermelho escarlate que, em meados do século XV se estabelece em Faubourg Saint Marcel, nas margens do rio Bièvre, num moinho que fica conhecido como o moinho dos Gobelins.

Em 1662, o rei Luís XIV compra o edifício da família Gobelin e, em 1667, tornaram-se, dirigidos pelo pintor Charles Le Brun e com a supervisão de Jean-Baptiste Colbert, a sede da Manifacture Royale des Meubles de la Couronne, que produzia objectos e tapeçarias de luxo para a nobreza. Devido a problemas económicos, a manufactura é encerrada em 1694 para reabrir em 1699 com o objectivo de produzir tapeçarias para uso real, produção que se interrompe com a Revolução Francesa.

Os Bourbons reabriram os laboratórios durante a restauração e, em 1826, é anexado um laboratório para a produção de tapetes. Em 1825 os teares horizontais são transferidos para Beauvais e a produção continua apenas nos teares verticais. Em 1871 o edifício foi parcialmente destruído por um incêndio e, depois, reconstruído em 1914. Em 1949 regressaram os teares da manufactura de Beauvais, destruids pelos bombardeamentos. De propriedade do Mobilier national, a manufactura alberga hoje um museu e laboratórios onde se continuam a produzir tapeçarias para a decoração de edifícios públicos.

2 Comentários »

  1. maravilhoso gostaria de saber como posso recuperar uma tapeçaria muito velha para ficar mais colorida esta muito desbotada por ser tao antiga passando na familia por geraçoes na tapeçaria que tenho tem uma senhorita num cavalo branco ao lado de um jovem rapaz em um cavalo negro estao na mata e ao fundo um castelo ao lado do casal um jovem com calças enroladas ate o joelho e pes descalços segura a guia de dois caes daqueles que caças raposas nao sei o nome da raça e belissimo o desenho gostaria muito de poder recuperar as cores ou quem sabe repintar por cima espero um conselho muito obrigada

    Comentário por teca maria — Outubro 6, 2009 @ 10:43 am | Comentar

    • Cara Teca,

      Obrigada pelo seu comentário. Lamento informar que não sou conservadora nem restauradora, sou Guia-Intérprete e, de momento, esta é a única informação acerca do assunto da qual disponho uma vez que isto são apenas transcrições de apontamentos que eu faço quando vou a conferências e visitas temáticas. Uma vez mais lamento.
      Muito obrigada.

      Atentamente,
      Sara

      Comentário por Sara Sardinha — Outubro 6, 2009 @ 8:19 pm | Comentar


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